Começar pelo começo
De novo
Talvez eu deva começar esta newsletter com uma afirmação seguida de uma anedota. Por exemplo, poderia afirmar o que muitos afirmam, que a poesia não serve para nada (essa frase sempre produz certo efeito). Depois, contaria como, em certa ocasião, em um primeiro encontro romântico com um homem desconhecido, ele me perguntou o que eu fazia da vida e eu expliquei que eu estudava Homero. “Homero?”, ele perguntou. “Sim, eu pesquiso a Odisseia”, eu disse. Ele ficou alguns segundos em silêncio e chegou à conclusão de que era o momento de me dar um conselho: “Se você quer realmente conquistar o interesse de alguém em um encontro, não pode responder isso. Diga, por exemplo, que você está desenvolvendo um jogo baseado na Odisseia. Isso vai funcionar”.
Antes desse encontro, por muito tempo eu tentei esconder que estudava grego antigo. Fui bem-sucedida até certo ponto, porque muita gente que convive comigo até hoje não sabe disso, embora eu tenha dedicado um longo período da minha vida a essas pesquisas. Mas sempre tinha aquela conversa de elevador – e por um bom tempo eu morei no décimo quarto andar, ou seja, havia tempo suficiente para que os vizinhos perguntassem o que eu fazia, eu responder que era da área de Letras e eles completarem: “Ah, então você dá aula?”, “Gosta de criança?”
Nem é que eu não gostasse de crianças (na época), mas fui fazer Letras porque eu gostava de ler e de escrever. Só que eu também não tinha clareza de que eu poderia ser, de fato, uma escritora. A faculdade de Letras e seus cânones acabaram me afastando terrivelmente da escrita que eu cultivava com apreço na infância e na adolescência, e quando dei por mim estava pesquisando poesia épica e trágica da Grécia Antiga – como se eu estivesse tentando me desviar o máximo possível daquela que era a minha meta inicial não declarada, a de produzir literatura hoje.
Estudar grego era difícil de explicar para os outros. Por isso padronizei a resposta “sou da área de Letras” por um tempo, até perceber que daí sempre vinha outra pergunta que me colocaria contra a parede até o momento em que eu diria simplesmente “Estudo grego antigo”.
A pergunta que se segue a essa informação, invariavelmente, é por quê. “Por que você estuda grego antigo?” pressupõe o “para quê isso serve?”. Estudar Homero ou não estudar Homero, eis que a gravidade do planeta permanece a mesma e ele segue girando em torno de si mesmo e do sol.
Quando você escreve poesia hoje, as perguntas não são muito diferentes dessa. “Por quê?” também se desdobra em várias outras: “para que escrever poesia hoje?”, “para que serve a poesia?” e a fatídica e mais temida de todas: “mas o que é, afinal, a poesia?”. Os que se esquivam dessas perguntas geralmente também escrevem poesia aqui e ali e fazem afirmações não menos fatídicas: “poesia é resistência”, “poesia é transgressão”, e o pior: “a poesia salva”. Ou seja, de um lado estão os que buscam na poesia alguma serventia ou utilidade em meio ao capitalismo e, do outro, os que veem nela algum poder misterioso, mistificador, de resistir, transgredir e, em última instância, salvar a si e ao mundo.
É verdade que há grandes definições do que seja a poesia feitas por grandes teóricos e críticos que são muito estudados ao longo dos anos por outros grandes teóricos e críticos em grandes universidades de grandes (e pequenos) países. Após ler muitas delas, saio com a sensação de que muitos desses autores falam sobre “a poesia” e “o poema” como se fossem integrantes de uma seita; falam dela como fiéis falam sobre seus livros sagrados. São textos, falas, posicionamentos e definições de e sobre poesia que estão mais para a liturgia do que para o que me mobiliza, que é a crítica literária.
Por isso, me desperta mais interesse o modo como algumas poetas contemporâneas têm pensado e respondido a perguntas como essas. Por exemplo, Adelaide Ivánova disse, em uma formação ministrada à UJC Brasil[1], que em momentos de crise fazemos perguntas como “para que serve a poesia?” ou “para que serve o amor?”, em vez de nos perguntarmos “para que serve o trabalho?” ou “para que serve o aluguel?”. Ela diz que nós questionamos a existência de coisas que nos humanizam e nos conectam, e não fazemos o mesmo em relação a coisas que nos desumanizam. Nessa mesma fala, ela destaca que vivemos em uma época em que precisamos defender a cultura e a educação, por um lado, e, por outro, há uma necessidade de tirar a poesia e a arte de cima dos pedestais e de entender que a poesia não é, em si, sempre revolucionária.
É preciso fazer poesia sem mistificá-la.
Ao mesmo tempo que concordo que o excesso de mistificação em torno da poesia é uma grande cilada, é difícil não lembrar que a poesia é a forma literária mais antiga que existe, portanto o gênero que mais traz consigo a sua tradição. Paradoxalmente (?), se uma poeta, em um poema, chama o “figo” de “figo”, ela o batiza de novo, como se fosse a primeira vez, porque escrever um poema é recriar o mundo ao reinventar a língua. Por isso a poesia é uma forma de crise: nunca facilmente definível, ela é o retorno que, ao se concluir a cada poema, não se concluirá nunca, e por ser jornada sem fim, a poesia está sempre de volta ao começo.
Escrever poesia é uma forma de começar do começo.
De novo.
Fora de moda
Fui a última pessoa no meu grupo de amigos a ter uma conta no orkut, depois a última a ingressar no Facebook, depois a última a adquirir um smartphone, depois a última migrar pro Instagram etc. Vocês já entenderam e podem deduzir que não tenho nem Twitter nem Tiktok. Digo “Twitter” e não X porque também sou lenta para mudar o nome das coisas, quando elas tiveram outro nome, através do qual eu as conheci. Sempre resisto a novas plataformas e tecnologias porque não me dou bem com elas e acho estranho quererem colonizar Marte enquanto ainda nem inventamos impressoras que façam sem trabalho bem-feito, sinceramente.
Assino e sou inscrita em várias newsletters aqui no Substack, mas nunca tive uma para chamar de minha. Acontece que tenho cada vez mais me desapegado do Instagram. Muitas vezes tenho vontade de compartilhar coisas que acho que não caberiam no imediatismo daquela rede social e simplesmente deixo pra lá. Então resolvi testar: e se eu começasse uma newsletter?
Bem, cá estamos. Só sei começar as coisas começando. Vou assim, sem muito preparo, e entendo no caminho aonde quero chegar. Espero ter a companhia de vocês no trajeto certamente errático que esta newsletter terá.
Falando em trajeto errático, o texto que abre essa news faz parte de um projeto de escrita com o qual venho brigando há alguns anos, um ensaio autobiográfico chamado O segundo estômago.
Quem sabe um dia ele sai?
Para escrever
Eu não tinha uma news para chamar de minha, mas escrevo, é verdade, a newsletter do Para escrever, iniciativa cultural voltada para a escrita criativa que eu fundei e coordeno. Vocês podem me ler por lá também. Hoje, publiquei por lá uma conversa incrível entre José Henrique Bortoluci e Ricardo Terto, gravada ao vivo em SP. O tema é “Conversas para escrever um país”. Fica a dica.
Essa coisa doida de oficinas de escrita
Como vocês provavelmente saem, trabalho ministrando cursos, oficinas de escrita, fazendo leituras críticas e dando acompanhamentos de projeto de escrita. Pois bem. Recebi há uns meses duas perguntas sobre oficinas de escrita voltadas para poesia. Parte das respostas foi publicada numa edição passada da newsletter do Círculo de Poemas. Deixo aqui perguntas & respostas na íntegra, a quem possa interessar.
- *é possível ensinar alguém a escrever poesia? se sim, como ensinar?*
Olha, depende do que a gente entende por “ensinar” e do que a gente entende por “poesia”, mas vou tentar ser curta e objetiva na resposta. Para mim, as boas oficinas de poesia são, sim, espaços de aprendizagem, de convivência, de teste e de troca, nos quais as pessoas que participam ganham repertório prático de leitura e de escrita do poema. Isso quer dizer que elas treinam o olhar para a leitura do poema e desenvolvem recursos, ferramentas, procedimentos e possibilidades diferentes para a sua escrita. Por fim, elas geralmente estão em um espaço seguro para experimentar e testar tudo isso e ainda por cima ter quem leia e comente seus poemas e ver se (e como) eles estão funcionando aos olhos de outros poetas-leitores. Tudo isso leva as pessoas que fazem oficinas a um ponto muito interessante para a escrita de poemas e preenche um trajeto importante do percurso de quem quer se tornar poeta ou se aprimorar na escrita da poesia, funcionando como uma espécie de catalisador na aprendizagem dessa prática.
- *qual é a sua experiência com oficina de poesia? já ministrou/já fez? se sim, pode contar um pouco sobre isso? como foi?*
Acho que já deu para perceber que sou uma entusiasta, né? (risos). Frequento cursos e oficinas de poesia e de prosa há mais de dez anos e ministro oficinas desde 2017, quando fundei uma iniciativa cultural voltada para a escrita criativa ao lado do meu companheiro, o Ricardo Terto. Para mim, esse percurso todo foi e continua sendo decisivo. Sou muito curiosa e atenta, então fico instigada a experimentar novas possibilidades de escrita nas oficinas que frequento e em geral sinto que minha escrita sai mais encorpada delas.
Em 2024 fundei a iniciativa cultural Para Escrever (@cursoparaescrever, https://paraescrever.com/), que também coordeno e que é igualmente voltada para a escrita criativa. Nela, oferecemos percursos de escrita tanto de poesia quanto de prosa, além de um percurso mais longo, em que a poesia, a prosa de ficção e a escrita de não ficção caminham entrelaçadas. Aprendo muito ministrando e coordenando esses cursos, seja com as turmas, seja com as outras pessoas mediadoras do curso.
A quem interessar possa: agenda de novembro
Aproveitarei a vossa atenção para divulgar um curso que darei a partir de 18 de novembro na Escrevedeira.
Entre novembro e dezembro também estarei ao lado do querido Tarso de Melo em um ciclo de estudos mais que especial chamado “Pensar Poesia” no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc/SP. É um curso presencial, às sextas, e vamos ler textos fundamentais de Octavio Paz, Audre Lorde, Mario Faustino e Wislawa Szymborska sobre o ofício a que dedicaram a vida toda — essa tal de poesia? É para todo mundo: leitores, poetas, críticos, estudantes. Essa primeira turma esgotou muito rápido, mas, se tudo der certo, nossa ideia é ter outros módulos, com outros textos, outras turmas e, claro, outras ideias.
Obrigada pela leitura.
Nos vemos (talvez?) em breve.
:)




Que maravilha de texto! Já pesquisei Homero também, mas foi em um sentido mais filológico do que literário e posso acrescentar que você está certíssima, não conseguimos respirar grego antigo sem que nos perguntem qual é a utilidade. Na época, pesquei sobre a linguagem, então quem me perguntava para que grego e poesia servem recebeia sempre a resposta "é didático", porque é assim que eu defino, nem como perdição nem como salvação, mas como conexão, aprendizado e restauração de uma cultura (só que nunca colou muito). São boas reflexões a serem feitas.
Espero poder ler mais de suas opiniões sobre a nossa área em comum!
Seja muito bem-vinda! :)